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Quantas artistas negras você conhece? Ou Um manifesto por mudança

19 Feb 2018

 

 

 

Depois de 18 anos na Noruega e quase 15 como trabalhadora esperançosa no campo norueguês de artes do espectáculo, tanto como performer, produtora, coordenadora e desenvolvedora de projetos artísticos, dramaturgista, co-diretora e articulista, muitas vezes me pego perguntando: Quem está escrevendo sobre artistas negras na Noruega? Quem está pesquisando suas expressões? Quem está colocando seu trabalho em um contexto artístico? Quem está difundindo seus aspectos teóricos?

Várias buscas no Google com diferentes palavras-chave mostram uma realidade bastante angustiante:

 

Somos invisíveis.

 

Apenas alguns no campo das artes e da crítica falam sobre nós ou nosso trabalho consistentemente, de uma perspectiva jornalística científica ou séria. Não somos vistas como sujeitos criadores. A presença de mulheres negras em artigos de revistas ou jornais sobre arte é um evento bastante isolado, uma exceção que confirma a regra. Quando algumas de nós aparecem nos canais da mídia, essa aparições estão muitas vezes inseridas em contextos muito específicos, limitados pela própria mídia ou pelas instituições de arte, raramente pela nossa agenda. Tanto as publicações especializadas em arte como os cadernos de cultura dos jornais mais relevantes da Noruega ignoram a existência de artistas negras norueguesas ou radicadas nesta terra. Porque? Minha teoria é que estamos diante uma narrativa universal sobre o que a arte pode ser e sobre quem pode ser visto como um artista.

 

Esta é a triste confirmação de um status quo que precisa mudar. Agora.

 

Porque nós existimos. Estamos aqui. Apesar da ignorância completa da sociedade majoritária sobre quem somos, como vivemos, o que sonhamos.

 

Durante a minha pesquisa, não encontrei estudos oficiais do Statistisk sentralbyrå (SSB, o órgão responsável pelas estatísticas oficiais do país) que cruzassem aspectos de gênero e das diferentes etnias presentes entre a população. O estudo "Emprego entre imigrantes, com base em registro" mostra que em 2016 havia 13 603 mulheres africanas empregadas na Noruega. Ainda assim, não foram encontrados dados específicos mostrando interesse no conhecimento das condições de vida das mulheres africanas e da diáspora na Noruega. Isso significa que a Noruega não se vê como parte da diáspora africana, como conseqüência, não sabemos exatamente quantas mulheres de ascendência africana ou afrodiaspórica vivem no país. No artigo "Diskriminering mot afrikanske kvinner" ("Discriminação contra as mulheres africanas"), de 2006, a Ouvidoria de Igualdade de Género e Anti-Discriminação (LDO), afirma que havia 7 400 mulheres de origem africana em Oslo naquele ano. Infelizmente, o artigo não traz referência à sua fonte, assim eu e aqueles que, como eu, tem curiosidade sobre essa informação específica, permanecemos confusos em nossa pesquisa, com dados imprecisos de 12 anos que pouco dizem sobre os indivíduos do grupo que o termo deveria nomear .

 

Diante de tal indiferença tanto da sociedade majoritária quanto do campo das artes, não é surpreendente que algumas pessoas com quem eu converso me perguntem se há tão poucas artistas mulheres negras ou se há muitas que simplesmente não são vistas.

 

Tenho certeza de que a última alternativa é a correta.

 

Porque eu posso mencionar algumas.

 

Noora Noor, Queendom (Asta Busyngje Lydersen og Monica Ifejilika), Haddy Njie, Isabel Sterling, Stella Mwangi, Hannah Wozene Kvam, Terese Mungai, Malika Makouf Rasmussen, Maria Lotus Karlsen, Nosizwe, Mariama Ndure, Rohey Taalah, Maria Liholt Pearl Tawiah, Mariama Slåttøy, Marea Knockout Noire, Luanda Carneiro Jacoel, Amie Mbye, Guro Sibeko, Jeaninne Lukusa, Evelyn Rasmussen Osazuwa, Amina Sewali, Sara Ramin Osmundsen, Camara Joof, Marianne Hetland, Busi Ncube, Mimmi Tamba, Iselin Shumba, Selome Emnetu, Anawana Haloba, Camille Norment, Agate Øksendal Kaupang.

 

Estes nomes surgiram espontaneamente na minha memória. A lista não tem ambição de ser completa, assim, eu posso ter esquecido alguém, e provavelmente há artistas talentosas de quem eu ainda não ouvi falar.

 

Não é fácil falar sobre esse tema. Em muitos casos, falta uma linguagem para as conversas difíceis e deixamos de colocar coisas importantes em palavras. É doloroso falar sobre exclusão, marginalização, falta de representatividade. É doloroso ser vista como a mulher negra raivosa. É mais fácil manter o silêncio e esperar uma oportunidade para mostrar o próprio trabalho.

 

Assim eu me sentia, até o dia em que percebi que as oportunidades para ser vista e ouvida podem ocorrer para algumas de nós, mas a estrutura não mudará a menos que rompamos o padrão estabelecido. Devemos ser colocadas para cima e devemos puxar umas às outras. Consistentemente, sem parar. Sim, sistematicamente.

 

Golden Mirrors - Mulheres Negras nas Artes deseja abrir um canal de fala e criação de discursos sobre mulheres negras e sua estética, um espaço, uma rede de e para artistas pretas de todos os campos.

 

Eu quero ser a mediadora e criadora de um novo espaço na Noruega, um lugar onde nós, artistas mulheres de origem africana, possamos ver e sentir que somos muitas, que somos indivíduos, que pensamos, escrevemos, criamos obras que provocam o pensamento, que fazemos arte e nos expressamos de maneiras diferentes.

 

Quero abrir espaço para o desejo de pertencer, para a dor e o prazer de sermos quem somos, para quebrar o silêncio - o melhor amigo da invisibilidade.

 

 

Eu quero construir pontes, estudar, explorar formas de linguagem que possam ser usadas para entender e conhecer mais artistas e expressões de mulheres africanas e afrodiaspóricas de todo o mundo, e ao mesmo tempo dar visibilidade àquelas que vivem e trabalham na Noruega, ou que têm uma conexão com o país.

 

Quero reverberar pensadoras negras que conceituam e elaboram experiências de vida a partir de uma perspectiva negra e feminista, e assim mostram novas direções, que orientam a forma como vemos nosso passado e presente, também no campo da estética e da arte. Porque, como a feminista americana Audre Lorde já escreveu:

 

Poesia não é um luxo. [1]

 

 

[1] Audre Lorde, Sister Outsider: Essays and Speeches, Crossing Press: Berkeley, 2007 (1984), 36.

 

 

 

 

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